O texto abaixo foi escrito em 2009 na minha primeira das três viagens que fiz a esta região, pela Record, SBT e depois NatGeo. Resolvi usar este texto pois ele emana o frescor de minha primeira vez em contato com a grande onda. Usei fotos da época e da última viagem que foi no ano anterior ao fim deste espetáculo, talvez os últimos registros do evento natural. Ficam agora somente as imagens e as memórias.
(escrito em 2009) Quem conhece nosso programa de TV sabe que nossa equipe viaja por todo planeta atrás de imagens de natureza que surpreendam os telespectadores e tragam um pouco dos animais, plantas e diferentes culturas e paisagens às telas brasileiras. Em abril de 2009, chegamos a Macapá, capital do Amapá convidados pela Policia Ambiental do estado “mais preservado do Brasil apenas com a promessa de poder testemunhar um evento natural que, segundo me disseram, marcaria a minha vida, a pororoca. Comecei a conhecer esta capital amazônica pela sua cultura. Minha primeira visita foi ao Mercado onde pude interagir com o povo local e conhecer um pouco das espécies de peixes e frutos comercializados na região. Durante a visita, um dos pescadores do local, em tom meio jocoso, desafiou-me a entrar no rio “que está cheio de botos”. Botos são animais que infelizmente pagam o preço pelos filhos sem pais que as gurias novas ou aquelas que deram uma pulada de cerca atribuem a ele. Se aparece uma barriga em quem não devia, quem foi? Foi o boto que se transformou em homem e arrastou a desavisada e inocente moça engravidando-a. Por mais incrível que possa parecer, tem pai e marido que acredita nesta fábula ainda nos dia de hoje, o que seria culturalmente diferente não fosse o fato destes mamíferos tão inteligentes quanto um cachorro e parecidos com peixes pagarem com a vida por um crime que não cometeram.
Voltei à cidade para um almoço com o pessoal da policia e um dos pratos foi um crustaceo que eu julguei ser um lagostim, espécie de lagosta pequena do mar, muito gostoso. Um dos militares que
estava ao meu lado chamou o animal de pitu, pitu é aquele camarão de água doce que vive nos rios de todo Brasil, só que este era gigantesco. Não acreditei que este animal fosse aquele mesmo camarãozinho que eu conhecia. Claro que fui a uma comunidade que pesca estes animais se utilizando de covos. Os camarões eram gigantescos, maiores ainda do que aqueles que eu tinha visto no restaurante (acho que os gigantes devem ser exportados) com pinças descomunais. Meu próximo passo seria a razão pela qual eu vim ao Amapá, eu iria testemunhar e registrar a pororoca.
Pororoca, que significa “estrondo” em tupi-guarani, é uma manifestação da natureza completamente única. Mais de 20% de toda água doce dos rios que deságua nos oceanos em todo planeta, é derivada da bacia Amazônica. O encontro destes dois titã de um lado o Oceano Atlântico e do outro lado o Rio Araguari. Este encontro produz uma onde que nessa região do Amapá, pode chegar a mais de 4 metros de altura e percorre mais de 70km selva adentro, destruindo as margens do rio com grande violência e impacto. Registrar uma situação como essa não é tarefa fácil, ainda mais que meu objetivo incluía surfar um trecho desta onda. Alugamos uma embarcação e reunimos uma equipe de mais de quinze pessoas com tres voadeiras e um jet sky para esta empreitada: pessoal da policia ambiental, bombeiros e Sergio Laus, um experiente surfista e recordista destas pororocas.
Depois de uma noite de viagem, chegamos à foz do Rio Araguia, de onde partimos com as voadeiras, permitindo que nosso barco se abrigasse. Sentados na beira de um barranco do rio, começo a escutar um barulho constante que vai crescendo. Sergio percebe minha inquietação e diz “Fica frio Richard, é a onda que vem vindo, mas ela ainda vai demorar uma hora para chegar aqui”. “Uma hora e o barulho tão alto?” eu pensei. A gigantesca onda, que varre o rio de margem a margem cresce, arrebentando o barranco e arrastando tudo o que encontra, fazendo que toda e qualquer forma de vida que se encontra em terra, se afaste rapidamente das margens.Só ficamos nós. Subitamente Sergio levanta-se e comanda “Tá na hora!”. As voadeiras deslizam até o meio do rio enquanto atrás de nós uma parede se move em nossa direção parecendo que vai nos engolir. Mantemos pouca distância do monstro e Sergio entra na água com a voadeira em movimento já em pé, segurando um cabo preso à voadeira. E surfa perfeitamente. No terceiro trecho da onda, foi a minha vez de tentar surfar a mais longa onda do planeta, após mais de 20 anos sem subir em uma prancha. Um pequeno impulso de Sergio e eu estava deslizando pela floresta amazonica em êxtase.
Foi neste cenário, completamente surreal e pouco provável que um dos meus mais importantes encontros animais aconteceram. A importância deste encontro está no fato da absoluta raridade deste ser vivo. Poucos biólogos tiveram o privilégio de estar frente a frente, na natureza, com o doce e enigmático tamanduaí.
Eu só havia visto um destes bichos no zoológico de Uachipa, em Lima, no Peru. E o pessoal lá tratava do bicho como se fosse o último da espécie. Havia uma tratadora (justamente a esposa do superintendente do zoológico) e uma sala só para ele. Fiquei surpreso e perguntei ao pessoal onde a foto tinha sido tirada. “Aqui perto, na área anexa do CETA Ecotel, na APA (Área de Preservação Ambiental) da Fazendinha”, responderam o guia Marcelo e o dono do Hotel. “Há muitos por lá.” Bem, nem preciso dizer que na mesma hora olhei para todos eles e disse, ansioso: “Gente, existem dois animais brasileiros que eu ainda não consegui ver na natureza: um é o tatu-canastra (que por sinal até hoje, enquanto escrevo esta matéria, início de 2011, continua no mesmo status) e outro é o tamanduaí.”
Não preciso dizer que os próximos três dias foram agitados. Toda uma equipe procurando o famoso animal, que é um tamanduá, o menor que existe na América do Sul, muito raro, que, a exemplo de seus parentes maiores, também se alimenta de formigas e cupins, só que do alto das árvores. Possui apenas duas garras nas mãos, uma delas avantajada, utilizada para romper as casas destes insetos. O grande problema de encontrar este animal é que ele só sai para se alimentar à noite, nunca desce ao chão e é bem pequeno, com menos de 20 centímetros, ficando enrolado durante o dia bem no alto da copa das árvores. Eu, honestamente, não acreditei que pudesse encontrar o animal, mas não queria desanimar a turma, que estava muito empenhada. Enquanto não achávamos o bicho, aproveitamos para gravar outros animais que cruzavam nosso caminho. No terceiro dia, o milagre aconteceu. Estávamos na mata e o celular do nosso guia tocou. Era o dono do Hotel, para mim: “Richard, só vai faltar o canastra na sua lista”. Tinham localizado um exemplar de tamanduaí. Como o bicho não se movimenta durante o dia, corremos para o local indicado, e quase desabei. Eu estava a menos de dois palmos de distância de um tamanduaí em plena natureza. Pedi ao meu mateiro para subir na árvore e baixar delicadamente o galho em que ele se encontrava, para que eu pudesse vê-lo mais de perto, já que estava todo enroladinho na mata de capoeira de várzea. Com o bicho à altura de meus olhos, estendi minha mão na continuidade do galho onde ele já lentamente começava a movimentar-se percebendo a agitação ao seu lado. Ele, com ar meio sonolento, subiu em meu braço direito, e o acomodei entre minhas mãos, trazendo-o de encontro ao meu peito onde ele se aninhou com os olhos fechadinhos. Não acreditei! Estava boquiaberto e com os olhos marejados de alegria e admiração. Naquela mesma noite Deus foi generoso e nos presenteou com mais um tamanduaí, em plena atividade, alimentando-se e com um bônus, um filhote agarrado às costas, fato que nunca presenciei em documentários. Este é o Amapá, uma terra esquecida por nós brasileiros mas abençoada em natureza por Deus.













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